Bem, estou de volta. Só não sei, se tarde demais... Carol ainda tentou falar comigo, mas novamente a repeli. A guerra era dela, não minha. Não queria e nem tinha tempo para ajudá-la. Há alguns dias atrás, recebi seu último chamado. Uma voz gritava em minha mente e uma corrente de dor percorria todo o meu corpo. Por fim, devo ter ficado por horas ou mesmo dias em um estado catatônico, que nem eu mesmo sei descrever. Quando voltei à consciência, algo me impelia a voltar. Enfim, já não podia renegar o passado. Talvez tivessem me dado um tempo para “brincar de rebelde”, mas agora, era impossível dizer “não”.
Coloquei algumas roupas na mochila e tomei o primeiro vôo que saía de San Diego para Nova York. A imagem de Carol presa na parede de um velho sótão não me saía da cabeça. Ela agonizava. Sua face sangrava, enquanto seu corpo visivelmente desfalecia. Seus olhos pareciam guardar duas chamas, que a consumiam, enquanto ainda lutava por um fio de vida. Ela olhava para mim e parecia perguntar: “Por que?”. E por um instante, era capaz de sentir sua dor e agonia. Sim, quando a nossa hora chega, não sentimos dor, apenas alívio por nos livrar dessa vil carapaça, chamada de corpo. Mas naquele momento ela estava presa. Antigas inscrições no chão e na parede a impediam de se libertar. Ela havia caído em uma armadilha e quem quer que tivesse feito aquilo, sabia de um dos nossos mais antigos segredos. Ela morreria, mas com uma mera mortal. O ciclo de vida e morte através das chamas não se completaria e, portanto, o mais antigo dos guardiões seria banido para sempre da cidade e outro não poderia tomar o seu lugar.
Meia-noite. Por algum problema na pista o vôo havia sido transferido do La Guardian para o JFK. Eu estava muito cansada e aquele lugar me deixava ainda mais confusa. Um turbilhão de emoções, algo tão incomum para um Avatar, arrebatava minha mente. Como poderia encontrar Carol em Manhattan, se mal conseguia encontrar a saída do aeroporto? Se é que ela estava na ilha... Enfim, encontrei a fila de táxi. Umas dez pessoas aguardavam a sua vez. Apesar disso, não demorou muito para chegar a minha. Ao entrar, uma mulher negra com seus trinta e poucos anos, de rosto visivelmente cansado, gentilmente me perguntou: “como está?”.
Eu simplesmente acenei com a cabeça.
Para onde vamos?
É... Eu nem sabia para onde ir. Times Square, por favor.
Foi a única coisa que consegui pensar naquele momento. Seguimos em silêncio por todo o caminho. Ao passarmos pelo pedágio, tive a certeza que Carol estava na ilha, mas em que lugar? Times Square. Estava no coração popular de Manhattan. O lugar onde todas as línguas se encontram maravilhadas pelas luzes da cidade que “nunca dorme”... Diante de mim um enorme outdoor de “Watchmen”. E então me lembrei: “Who watches the watchmen? A cidade tem medo de mim. Eu vi sua verdadeira face. As ruas são sarjetas dilatadas cheias de sangue e, quando os bueiros transbordarem, todos os vermes vão se afogar”.
Não. Eu não era uma super-heroína e nem a cidade tinha medo de mim. Talvez Carol ou James pudessem ser vistos assim, tal como observadores de uma guerra sem fim, que se arrasta desde que os Deuses, o Caos e a Ordem descobriram que podiam fazer dos humanos meros peões em seu eterno jogo de xadrez.
Enquanto isso, eu não passava de uma fugitiva. Sim, eu sabia a “verdade” e, portanto, estava fora do jogo. É, mas ninguém está fora. Você tem que jogar. Não existe opção. A única coisa a decidir é de que lado você quer estar e no fim, você mal sabe em qual time está jogando. Tudo é tão obscuro quanto um crepúsculo no final de tarde. É apenas uma linha tênue entre a luz e as trevas, entre aquilo que julgamos como bem e mal, certo e errado. Esse é o jogo que, querendo ou não, humanos e não-humanos foram condenados a jogar. Até o final dos tempos. Até que um dos lados saia vitorioso. Ou até que tudo se torne nada.
A poucos metros dali, uma estação de metrô.
Eu sei, não era uma grande idéia. Mas também, no estado em que me encontrava, eu não tinha muitas. Precisava começar por algum lugar e talvez as “veias de Manhattan” pudessem me indicar uma direção. Por outro lado, eram tantas naquele mapa diante de mim, que nem em mil anos poderia encontrar Carol, a não ser que um milagre acontecesse. Você acredita neles? É, às vezes nos vemos diante do improvável...
Só senti meu corpo ser jogado para frente, espatifando contra o vidro que protegia o mapa. Por um breve momento, tudo ficou escuro e eu caí de joelhos. Ainda atordoada, abri os olhos e ao colocar as mãos no rosto, vi o sangue escorrer pelos meus dedos. E ao olhar para o lado, uma mulher ou alguém que se parecia com uma, pois estava quase que totalmente coberto, me olhava fixamente. Voltei os olhos novamente para o sangue e logo depois, ela já havia sumido entre as escadas. Confusa com tudo aquilo e ouvindo passos se aproximando, tentei me levantar apoiando as mãos no mapa.
De repente, como se uma onda de fogo invadisse a minha mente, fui levada para cenas na minha infância no Harlem, quando jogando bola com amigos da escola, quebrei uma das vidraças de um prédio vizinho. Logo em seguida, vi Carol agonizando em sua “prisão” e um grito de dor me fez retornar à consciência. Todos já estavam à minha volta, inclusive dois policiais que estavam por perto quando cheguei. Com uma força que não imaginava ter, dei um empurrão e sai correndo. Entre carros e pessoas em uma Times Square ainda movimentada, consegui me desvencilhar dos guardas e pegar um táxi. Com uma cara de assustado, o motorista indiano me perguntou para onde desejava ir.
Harlem. Eu disse, entregando-lhe mais do que o necessário para pagar a corrida.
Pedi que ele parasse na esquina do quarteirão. A neve que se abateu sobre a cidade durante o dia cobria os carros e o chão estava deslizante. O prédio ficava em uma área ainda não revitalizada da região e aparentemente, só havia uma carcaça, que só por estar de pé, deveria valer alguns milhões. O edifício de tijolos marrom-escuros, com escadas de incêndio para fora, não era alto, tinha apenas três andares e um sótão, que parecia razoavelmente intacto. Na verdade, era o andar térreo que ficava abaixo do nível da rua. Desci correndo as escadas escorregadias e vi que a porta estava apenas encostada.
Não havia nada além de jornais, um cheiro de podridão e ratos. Muitos deles. Além de Carol presa com mãos e pés atados na parede. Quando entrei, ela simplesmente levantou seus olhos, para então voltar ao seu estado de quase inconsciência. Eu corri até ela, mas ao pisar no círculo que a envolvia, algo me jogou para trás com uma força tão grande que me fez voar pela sala, indo de encontro à parede. Por mais incrível que possa parecer, não fiquei atordoada. Pelo contrário, me levantei pronunciando palavras as quais seria incapaz de lembrar nesse exato momento. Era como se estivesse em um estado de transe. Eu não tinha pensamentos. Era capaz apenas de sentir a energia que invadiu o meu corpo.
Ao voltar ao meu estado normal, sentia dores por todo o corpo, enquanto as inscrições do chão haviam virado pó. Carol estava no chão e eu de joelhos diante dela. A segurei em meus braços e quase sussurrando, com os seus olhos cor de fogo, ela disse: “eu lhe avisei, boa sorte”. E eu nada pude fazer, a não ser ouvir o seu último cantar, enquanto as chamas consumiam seu corpo.
Não, como eu disse, não existe dor. Apenas o espírito se esvai quando somos consumidos pelas chamas. Esse é o nosso destino. Nossa provação. Faz parte de nossa própria natureza. Assim vivemos, morremos e renascemos...
**************************** Conto baseado na ambientação do RPG Crepúsculo. Para saber mais sobre os termos utilizados, consulte o Glossário Crepuscular.















4 comentários:
Seu blog é maravilhoso! estou encantada. Descobri no blog do meu amigo Paulo. Saudações!
Genial!
Ótimo texto. Parabéns.
Genial! Ótimo texto.
Parabéms.
Olá Dani e Pedro, agradeço pela visita e comentários. Sejam bem-vindos ;)
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